sábado, 3 de maio de 2014

Mentira tem perna curta e não anda sozinha


Recentemente rolou um debate sobre mentir. Eu sou contra mentir, muito contra. Mas quero esclarecer uma coisa: quem diz a verdade não o faz porque é muito bacana e não quer enganar ninguém. Não mente porque não quer correr o risco de ser pego e ter que usar a criatividade para inventar as mil outras mentiras para sustentar aquela primeira. Não mente, também porque sentiria vergonha no caso de ser pego (aí sim, isso seria um traço virtuoso, afinal, vergonha e pó compacto sempre caem bem na cara) e também não mente porque é bizarramente egoísta e, não se importando com o que o sujeito que ouve a verdade vai sentir, visa seu bem-estar da consciência limpa.

Então é isso, não é tocante estar diante de gente que não mente, o que eu quero ver é gente que não faz cagada, aí sim, talvez eu me impressione.

Desejo a todos consciência e que encontrem pessoas iguais em seus caminhos. Pros amigos é a melhor benção, pros inimigos, a pior praga.

Insight gerado depois de observar que tudo o que desejamos aos outros, nos volta em dobro. Eu posso suportar consciência e gente igual a mim. Que venham! 


terça-feira, 1 de abril de 2014

Rompimento é liberdade

Era uma vez uma moça que ficava online e lá se relacionava com outras pessoas online. Ela brigava por uma causa social nobre e simpática, participava de diversas maneiras dessa causa e no ambiente online começou a encontrar os "companheiros de luta" como ela gostava de chamá-los.

Nasceu amizade com um desses companheiros de luta dela. Ele era escrachado, tinha em comum com ela, além da mesma causa social, falar tudo que vinha a cabeça, sem pensar. Ela discordava de 80% do que ele escrevia, porém, as idéias dele, sob o ponto de vista dela, equivocadas, não feriam nenhum dos seus princípios e com referência a causa social deles eles concordavam em 100%. Isso fez com que os anos passassem e eles se aproximassem. Na prática, se defendiam, a cada conquista de um, o outro era incluído e eventualmente, desabafavam um com o outro. Uma relação que não era intensa, mas era profunda.

Todo ser humano é carente, e, carentes, fazem coisas para cativarem uns aos outros. A atuação no trabalho social é uma das coisas que as pessoas fazem para se cativar mutuamente. No caso dele, a atuação social era insuficiente, ele gostava de dar declarações polêmicas, posar de politicamente incorreto, causar. Mas como era bom caráter e acertava em muitas coisas, ela tolerava todas as diferenças.

Um dia, surgiu uma notícia de que 65% dos brasileiros, dentre os entrevistados muitas mulheres, achavam que mulheres que usam roupas sensuais merecem ser estupradas. A notícia não choca nenhuma mulher. Todas sabem na pele que a mentalidade do brasileiro é assim. Todas são vítimas do machismo, incluindo as machistas. O machismo é essa coisa nojenta, forte, impregnada na cultura do mundo, no Brasil num nível mais grave, o que interessava na pesquisa era o gancho que as mulheres precisavam para pedir que simplesmente parassem com o machismo.

Ele se pronunciou como não acreditando na pesquisa, dizendo que era uma manobra de massa. Oi? Ela tinha naquele momento o intolerável: estava diante do amiguinho polêmico posando numa atitude absolutamente machista (sim: fingir que machismo não existe ou não é tão grave, é machismo). Dessa vez, ele feria um princípio e ela precisava, por um compromisso consigo própria, se pronunciar. Foi o que fez: no post dele ela comentou que machismo era real e sério e que ela falaria com ele inbox.

Inbox ela explica que a pesquisa mostra a realidade, sim!  Que ela mesma e amigas diretas passaram por violência e a pergunta é sempre "o que você estava fazendo lá", "que roupa você estava usando" , "você bebeu" e coisas do tipo. Não se trata de perguntas simples, mas perguntas que, depois da resposta da vítima são seguidas de "ah, mas você queria o que também?" e que isso, essa responsabilização da vítima desse crime horroroso é uma segunda violência ainda mais séria e que ele tinha que se retratar, afinal, era inviável pra ela ler aquilo. Caso ele não se retratasse, o rompimento era a única alternativa enxergada por ela.

Ele responde que a raiva dela era pautada numa experiência pessoal, que existe violência da mulher contra o homem, que ele tinha direito a opinião dele.

Ora, opinião dessas? Isso é injustiça, não opinião. É absurdo do homem, branco, hetero negando que existe machismo, racismo, homofobia e desmerecendo o sofrimento das suas vítimas. Mentindo para si próprio em público e angariando seguidores (a internet possibilita isso). Opiniões merecem respeito e debate, só que no caso das injustiças o que cabe são esclarecimentos e combate. Ela pediu que ele parasse de argumentar uma vez que o simples fato dela ter que justificar o que ela já havia explicado a magoava mais. Ela já sabia, no seu íntimo, que o momento do rompimento tinha chegado.

A separação sempre envolve algum tipo de sofrimento. O medo da saudades, de abrir mão, de tomar a decisão justa quando ela depende do nosso movimento. Esses medos nos causam sofrimento. Em contra-partida, se você fica triste porque abriu mão de algo externo, no caso, um amigo, imagina se você abre mão de um valor. Abrir mão de um valor é ferir-se a si próprio no íntimo, é destruir a própria identidade e perder tranquilidade até pra se olhar no espelho. Consciente disso, ela lamentou a morte simbólica do amigo dela, enfrenta o luto e se sente aliviada por ter mantido a lealdade com ela mesma. Desfez as conexões online, incluindo uma página que faziam juntos, e veio escrever esse texto, como última homenagem ao que aconteceu de bom na vida em comum com ele.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Insights e contradições

A aula estava tão interessante que num dos cadernos tinha uma foda mal dada desenhada (tinha até o fiofó do homem ilustrado na peça) acrescida do desenho de uma pistola de um lado do papel e de outra pistola apontada pra cabeça de uma pessoa do outro. Tinha uma aranha no centro. A simples apreciação estética do desenho amador feito a caneta Bic no caderno pautado dizia muito sobre o que acontecia na sala e que o desenhista estava realmente muito entretido.

Um check list do que pode e o que não pode, o que deve e o que não deve ser feito nos textos era apresentado sem domínio técnico. Os professores usam a palavra "tautologia", "pleonasmo" e "redundância" e ao serem perguntados sobre os significados das figuras de linguagem, uma vez que detectar a diferença não é tarefa simples, titubearam. Boa parte da sala nunca havia ouvido falar a palavra tautologia... eles passaram um video de stand up comedy para dispersar, era mesmo um plano B pra esse tipo de situação.

Para completar, todas as "regras" impostas eram violadas na apresentação proposta. Falavam em dar credibilidade para seu texto quando você o escrever. Qual credibilidade uma pessoa lúcida dá para conselhos violados sem querer por quem os proferiu?

Salvou uma coisa, que, aliás, vem sendo repetida sucessivas vezes: O que interessa? O que quer falar? Como vai contar? Nesse texto que voz fala, por exemplo: interessa o desenho da foda mal dada. Quer falar que para dar aula é básico se preparar consistentemente, pois a platéia percebe imperícia como cachorro percebe medo. Contou passo a passo a sequencia de ações.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Fazendo tudo e só o que podemos.

Toffee - estrela de fevereiro do calendário Celebridade Vira-Lata 2013
Não tenho poder de combater a imbecilidade humana. Não tenho capacidade para lutar contra fogos de artifício, rodeios, maus tratos contra animais, crianças, mulheres, negros, homossexuais, idosos, deficientes. Contra a corrupção, então, só o que posso é me manter honesta. Tudo isso me sensibiliza, entristece, envergonha e oprime. Sou humilde o suficiente para aguentar o sofrimento em silêncio diante da minha impotência de pessoa comum. Sou apenas um ser humano limitado pela incompetência emocional, intelectual, física, financeira e social, além de tudo, sei que gritar na internet é sem resultados e sem valia.

Inconformada com o lado feio da existência, não desisti e pensei no que posso fazer. Posso ser gentil com as pessoas e perseverar nessa lógica. Todo mundo pode sorrir. Todo mundo pode utilizar com frequência POR FAVOR e OBRIGADO. Todo mundo que dirige, pode dar passagem no trânsito. Coisas simples, que desencadeiam maravilhas complexas.

Depois de assimilar a responsabilidade e obrigação de praticar coisas simples, pode-se ter mais critério para boas atitudes. Pensei em como posso ajudar na CAUSA ANIMAL. O óbvio, se quer atuar em qualquer causa, a ação tem que ser EDUCACIONAL. Para conseguir a atenção das pessoas e engajá-las, nada como bom humor e contar que finais felizes existem. Lembrar o porque da vida ser tão mágica e valiosa pra todos. Está aí o Celebridade Vira-Lata.


A experiência no trabalho social me convoca a insistir para que as pessoas entendam e abracem sua responsabilidade. O que eu percebo de gente efetivamente bem-intencionada e capacitada com atitudes levianas e declarações vazias é o que mais me preocupa. Antes de ir pra linha de frente, eu achava que a apatia e indiferença eram o problema, mas hoje, sei que sem querer, as pessoas atrapalham a evolução de maneira ativa.

Alimente seu lado que ama, faz, transforma e participa, sempre com classe e mansidão. É essa voz que tem que ser fortalecida dentro de você. Toda vez que um movimento positivo é iniciado amigos de jornada se unem e os resultados são indescritíveis.

Agradeço a todo mundo que me ajuda a fazer o projeto: quem trabalha nele, quem compra o calendário, quem faz os mutirões, quem leva os animais. Essa troca de energia, sem dúvida, é o segredo do sucesso. Afinal, qual é a definição de sucesso se não SER FELIZ?

Já tem o calendário mais lindo e transbordante de boas energias como amor, amizade, solidariedade e bom humor? Compre em www.celebridadeviralata.com.br .

Tédio criativo

Conheça bem o seu leitor e escreva pra ele, blablabla, identifique o problema/questão central para escrever sobre isso, blablabla, o que é importante, faça uma lista, junte o interessante...

A proposta do exercício na sala de aula era mágica: escrever a escaleta do discurso de posse de Barack Obama e depois bater com o real. A engrenagem funcionava com um brainstorming sobre o que era importante falar, em ambos aspectos subjetivo e objetivo e então só restaria dar fluência pro texto. A opção do professor para quebrar o gelo, foi escalar a classe para participar, o que é bem interessante, pois as pessoas passaram a ter rostos, vozes e opiniões. Uma senhora, que é um mulherão, se destacou pela inteligência, cultura, dom da palavra, charme, estilo. A dupla cabelo infernal e DDA cometam entre elas que querem ser igual a ela quando crescerem.

O problema começa porque o professor não tem a articulação necessária para mediar a participação da platéia. Um exercício que poderia ser super interessante e dinâmico promoveu um tédio que rendeu diversos bloquinhos de anotações presentes na sala em obras de arte. No bloco da cabelo ruim, por exemplo, havia belos desenhos do Snoopy, Garfield e Calvin. O que provocou tal fenômeno foi uma votação inútil e interminável para saber em que ordem a classe queria que a escaleta do discurso ZZZ e um pernilongo sobrevoava a sala. Seria ele o mesmo da aula anterior? A cabelo louco se perguntava, em meio a outros pensamentos sobre esse tipo de curso não ajudar a pegar ninguém, então, tinha que ser mais forte em valor agregado e, com certeza, mais divertido. O telefone dela toca, ela sai pra atender. Pra sua surpresa, está rolando o coffee break do outro curso.

Ela desliga o telefone e decide ficar alí assistindo as pessoas do outro curso, dois gatinhos estão no sofá ao lado dela, ela não titubeia: pergunta o se o curso que eles estão fazendo agrada e o papo desenrola. Na cabeça dela, fugir da aula pela qual ela pagou um milhão de dólares nunca fez tanto sentido: naquele momento, ela exercitava sua capacidade de fazer amigos simultaneamente a olhar pra homens bonitos. Aí sim. Isso é divertimento.

Durante o coffee break da classe dela, ficou eufórica contando o feito. Voltou pra aula feliz, e até concentrada. Deu até pra aproveitar um insight: o mundo das idéias é seu campo de batalha. Mas a pegada da aula se manteve entediante, tinha até uma menina pintando as unhas (é, é isso, com esmalte que exalava devidamente seu cheiro pela sala). Agora os planos pra próxima aula é tentar vender calendários em prol dos animais. Afinal, alguma coisa sempre, em qualquer lugar, tem que render.




quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

bullying silencioso

A aula começa e a primeira indicação é o discurso de posse do gostoso do Barack Obama, legal, o cara é tudo de bom mesmo... e então começa a historinha do escritor que acha que é lobo, quer navegar bêbado no barco naufragante, e na verdade descreve como se sente diante dos fatos da sua vida através do seu filme selvagem. A atmosfera é "the same old story" sobre a densidade emocional dos gênios da literatura. ZZZZZZZZ tem um pernilongo gordo sobrevoando a sala que traz na cabeça da platéia a imagem e o som daquelas maravilhosas raquetes elétricas de esturricar mosquito.

A primeira parte da aula reforçava insights que não podem ser negligenciados como: quando se escreve, a carga da experiência pessoal sai no papel. Não só os fatos, mas o que pensamos e sentimos sobre eles também aparecem. A história é contada e o leitor sente o que quem escreveu sente. Quando você encontra quem usa a mesma experiência que você para aprender alguma coisa, você encontrou seu leitor.

Enquanto uma aula que é portadora de DDA desenha tudo o que o professor fala pra tentar se manter concentrada. Intervalo.

Ao chegar do intervalo alguém faz uma piada sobre o bilau do Menelau e quando a tia sentada na segunda fileira ri, ergue sua taça transbordante de vinho que quase derrama em seu casaco branco. Uma moça de cabelo infernal, sentada ao lado da DDA comenta sobre o vinho. A do DDA dá uma risadinha maldosa e mostra o que, além da taça transbordante, a senhora do casaco branco também traz consigo um copinho de plástico transbordante de biscoitinhos e as duas ficam de gracinha babaca no bullying discreto peculiar de quem já está na faixa dos 40. Ah, se elas fossem adolescentes.

Esse bloco da aula caminha entediante. O professor discorre sobre a escrita utilizada como ferramenta de autoconhecimento e autoajuda enquanto ele mesmo utiliza a fala em aula para a seção de elevação da autoestima através de um causo sobre como ele havia sido o herói da musa nerd. Como mulher é foda, a dupla DDA e cabelo infernal começam com bilhetinhos sobre como homem é bobo, os de meia idade ainda mais, que o professor era gato quando mais novo e agora tem saudades do assédio feminino num grau que clama por atenção o tempo todo e nem pode ver e aproveitar como a mulher dele é linda, quando alguém solta uma frase: Quer dizer que escrever é auto-ajuda? (descobriu a América), a tia do casaco branco, já tendo terminado sua taça, vira pra traz, com cara embreagada, um sorriso estranho e solta qualquer coisa em reforço à brilhante conclusão do colega do fundão, a DDA já fica toda alvoroçada esperando o comentário maldoso da cabelo infernal que, sem olhar pra comparsa de bullying, escreve, em meio às palavras de crítica ao comportamento "gatão de meia-idade" do professor, um "TÁ LOKA". A DDA simula uma gargalhada e a cabelo infernal desde a ladeira num acesso de riso. Como ela consegue conter o barulho da risada, começa a chorar, e a DDA colocando pilha sussurrando "não olha pra mim". O professor encara as duas, a DDA fica séria enquanto a cabelo infernal tapa os olhos e a boca imaginando ficar invizível. A do cabelo levanta e sai da sala pra ir gargalhar do lado de fora, a tia do casaco branco vai atrás dela pois precisa ir ao toilete dispensar parte do vinho que havia ingerido. A moça fica sem saída pra poder dar sua gargalhada contida. Pra quem tem acesso de riso, como a cabeluda, deixar de soltar a gargalhada é como perder um bocejo ou espirro.

Na volta da moça que passava mal por ter sua gargalhada podada, a DDA, sem perceber a gravidade da situação da cabelo infernal, continua encarando a pobre coitada que começa escrever no papel histericamente 1 2 3 4 5 6 7 8 9 0 sucessivas vezes até acalmar. Assim que ela retoma o controle, a cabelo infernal, que mantém um blog com o diário de bordo do curso, escreve no bilhetinho do bullying para a DDA: todo mundo entra na dança no texto de hoje.

Só falta agora é alguém que estava lá encontrar esse texto.