quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Quando eu comecei na internet, isso aqui era só mato


Não tinha ninguém por aqui. Tinha eu e uns moleques caçando outras pessoas, uns cientistas e seus artigos acadêmicos e o MIRC, onde essa meia dúzia de moleques conversava em inglês com essa meia dúzia de cientistas do mundo inteiro. Quando a gente encontrava alguém brasileiro, ficava amigo. Normalmente, você já tinha falado com essa pessoa no video texto algum dia.

Aí começou o Altavista e o Cadê, depois a UOL e seu chat. Fiz vários amigos no chat, fui pro Rio de Janeiro no encontro da sala 2. A galera entrava quase todos os dias no mesmo horário pra bater papo. Ninguém pensava em pegação, embora eventualmente rolasse, nem em negócios ou empregos, embora também acontecesse. Era legal, era espontâneo.

Aí as empresas de tecnologia piraram e começaram a pagar salários milionários, inventar números, e teve a bolha da internet. Passou isso, começou a blogosfera.

Blogosfera era legal. Era todo mundo, as pessoas de verdade, fazendo seus blogs, sobre diferentes assuntos e conhecendo gente na internet porque pelos assuntos, a gente encontrava gente que tinha os mesmos interesses e podíamos compartilhar dicas e fazer amigos. Além disso, como os blogs eram em sua maioria pessoais e não sobre um tema específico, a gente aprendia uns com os outros. Eu, por exemplo, lia uma menina que postava de moda, de tarot, de literatura, de música... aí, eu descobria coisas que ela falava e que nunca tinham cruzado o meu caminho antes. Era enriquecedor.

Veio o orkut, foi o máximo. Foi o máximo encontrar amigos, era uma lista telefonica de gente na internet junto com os assuntos (as comunidades). Não tinha timeline, era a blogosfera melhor organizada, mas você tinha que ir atrás do que queria também. Fiz mais amigos, aprendi mais um monte de coisa.

No Orkut começou a deturpação: grandes empresas pagando donos de comunidades dos assuntos relacionados a eles. Mas logo veio Twitter e Facebook, mais livres. Eu vivi a livre comunicação entre as pessoas. Eu descobri as pessoas. E elas eram ótimas. Elas ensinavam o que sabiam, compartilhavam as informações, ajudavam as outras pessoas a falar o que precisava ser falado. Eu mandava um email para uma blogueira de variedades sobre os vira-latas, e ela me pedia mais informações, queria aprender comigo, publicava porque depois de aprender, entendia a relevância do assunto que eu propunha. Ela não ficava se achando, me esnobando por seu não ser conhecida e ela sim. Inclusive, eu mesma, tinha aprendido muito sobre proteção animal porque haviam inúmeras pessoas tentando ajudar os animais disseminando informação.

Não tinha ódio, não tinha donos da verdade, não tinha sonegação de informação, não tinha esnobação, não tinha delírio da carência querendo aparecer. Era uma galera COMPARTILHANDO, ensinando e aprendendo.

Eu senti muita esperança, eu acreditei que o mundo ia mudar, que eu viveria pra ver tudo dar certo. Infelizmente, as coisas na internet mudaram antes do mundo, as caixas de e-mails foram invadidas e por isso perderam sua eficácia, o Facebook abriu seu capital e depois de iludir as pessoas de que elas estavam conectadas com seus interesses, impediu que falássemos uns com os outros, a menos que pagássemos para eles. Agora, ainda pior, como todo modelo de empresa capitalista, promete que se pagarmos o que eles querem, eles permitirão que falemos com nosso público conquistado com nosso conteúdo que cedemos gratuitamente para eles, mas não entregam o que prometem.

O quarto poder, que é o da comunicação e havia sido rompido voltou para o controle dos grandes. Os grandes ensinaram as pessoas a se manifestarem com ódio, manipularam as massas com suas vaidades e inseguranças, fazem os carentes aparecerem para confundir e tumultuar, dão espaço para quem não tem nada para ofertar, retomaram o controle através do tumulto e não temos mais nenhum meio de falar gratuita e espontaneamente com quem efetivamente quer trocar idéias com a gente.

Não estou entregue ao pessimismo, mas sei que os passos que demos pra frente, foram só por um curto período de tempo, agora, tenho quebrado minha cabeça atrás de idéias do que fazer para retomar aquela coisa boa e cheia de conteúdo que tivemos... mas como faremos isso se o público só quer ver coisas engraçadas e preferencialmente só as figuras?

Entramos na era da pós informação onde a ignorância é a opção da maioria?

#redessociais #midiassociais #facebook #twitter #orkut #blogosfera #instagram #comunicação #publicidade #anúncios #spam

terça-feira, 19 de abril de 2016

Desculpar-se

Desculpar-se é um verbo de ação, não uma simples palavra fácil.

Muito mais do que ouvir um pedido de desculpas, a pessoa agredida quer ser compreendida. Quer que quem a ofendeu entenda como e o que a causou, se arrependa e não volte a fazer isso novamente.

É impossível esperar que a pessoa volte a confiar em você se você nem sequer sabe as conseqüências das suas atitudes equivocadas e continua a invalidar a dor de quem reclama. Arrependimento é um sentimento, é muito mais do que uma palavra, mais do que se livrar de um inconveniente, significa humildade, paciência, empenho e mudança.

Se você é incapaz de entender isso, você não merece uma nova chance. Se retire.

Como tudo muda

Enfrento um momento de angústia e fui pro pages escrever o que sentia como sempre faço quando rumino sentimentos e pensamentos.

Me deparei com alguns textos de situações do passado e os li. É muito louco como lemos o que éramos naquelas situações e sentimos um tipo de vergonha por ter perdido tempo e energia com assunto e gente irrelevante.

Ao perceber essa sensação, lembrei que eu tinha esse blog e resolvi registrar outra coisa nada a ver com a minha motivação inicial para escrever: seja lá o que estiver acontecendo, o tempo vai passar, você vai olhar pra trás e vai ter pena de ter desperdiçado recursos com o que não merecia. O problema, é que enquanto você tem esperança, você investe, aposta, e depois de se recuperar por ter dado errado, vê que foi o melhor mesmo.

Quando dá certo, você ganha o que queria, o tempo passa e você imagina como seria se tivesse dado errado.... e normalmente se pergunta se não teria sido melhor.

Eu já não estou mais nem aí. Ofereço o meu melhor em todos os lugares pra todas as pessoas. Os inteligentes aceitam e retribuem, os aproveitadores aceitam e vão embora e os burros recusam. Já eu, nunca fico sem nada pois sou a dona do meio de produção: o meu melhor sempre me acompanha.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Insuportável.

A cabeça dói e os dentes rangem. O coração palpita e a velocidade dos pensamentos que tentam decifrar a sensação é incompreensível. Quem quer sossego, não pode ter contato com isso. Em contrapartida, depois de se ter contato com isso, é só nisso que se pensa.

Seria mais fácil dizer que é um feitiço. Até quem gosta de repetir que é descrente, que controla, que sabe e que faz só o que quer, no fundo, quando enxerga a possibilidade de perder os sentidos e o chão, morde a isca e depois culpa o acaso. É que quando a imaginação acorda para perspectivas onde se perde a vista no horizonte, a curiosidade começa a berrar e falar sim é tudo o que se quer.

Insuportável, na verdade, é um elogio inefável.

sábado, 3 de maio de 2014

Mentira tem perna curta e não anda sozinha


Recentemente rolou um debate sobre mentir. Eu sou contra mentir, muito contra. Mas quero esclarecer uma coisa: quem diz a verdade não o faz porque é muito bacana e não quer enganar ninguém. Não mente porque não quer correr o risco de ser pego e ter que usar a criatividade para inventar as mil outras mentiras para sustentar aquela primeira. Não mente, também porque sentiria vergonha no caso de ser pego (aí sim, isso seria um traço virtuoso, afinal, vergonha e pó compacto sempre caem bem na cara) e também não mente porque é bizarramente egoísta e, não se importando com o que o sujeito que ouve a verdade vai sentir, visa seu bem-estar da consciência limpa.

Então é isso, não é tocante estar diante de gente que não mente, o que eu quero ver é gente que não faz cagada, aí sim, talvez eu me impressione.

Desejo a todos consciência e que encontrem pessoas iguais em seus caminhos. Pros amigos é a melhor benção, pros inimigos, a pior praga.

Insight gerado depois de observar que tudo o que desejamos aos outros, nos volta em dobro. Eu posso suportar consciência e gente igual a mim. Que venham! 


terça-feira, 1 de abril de 2014

Rompimento é liberdade

Era uma vez uma moça que ficava online e lá se relacionava com outras pessoas online. Ela brigava por uma causa social nobre e simpática, participava de diversas maneiras dessa causa e no ambiente online começou a encontrar os "companheiros de luta" como ela gostava de chamá-los.

Nasceu amizade com um desses companheiros de luta dela. Ele era escrachado, tinha em comum com ela, além da mesma causa social, falar tudo que vinha a cabeça, sem pensar. Ela discordava de 80% do que ele escrevia, porém, as idéias dele, sob o ponto de vista dela, equivocadas, não feriam nenhum dos seus princípios e com referência a causa social deles eles concordavam em 100%. Isso fez com que os anos passassem e eles se aproximassem. Na prática, se defendiam, a cada conquista de um, o outro era incluído e eventualmente, desabafavam um com o outro. Uma relação que não era intensa, mas era profunda.

Todo ser humano é carente, e, carentes, fazem coisas para cativarem uns aos outros. A atuação no trabalho social é uma das coisas que as pessoas fazem para se cativar mutuamente. No caso dele, a atuação social era insuficiente, ele gostava de dar declarações polêmicas, posar de politicamente incorreto, causar. Mas como era bom caráter e acertava em muitas coisas, ela tolerava todas as diferenças.

Um dia, surgiu uma notícia de que 65% dos brasileiros, dentre os entrevistados muitas mulheres, achavam que mulheres que usam roupas sensuais merecem ser estupradas. A notícia não choca nenhuma mulher. Todas sabem na pele que a mentalidade do brasileiro é assim. Todas são vítimas do machismo, incluindo as machistas. O machismo é essa coisa nojenta, forte, impregnada na cultura do mundo, no Brasil num nível mais grave, o que interessava na pesquisa era o gancho que as mulheres precisavam para pedir que simplesmente parassem com o machismo.

Ele se pronunciou como não acreditando na pesquisa, dizendo que era uma manobra de massa. Oi? Ela tinha naquele momento o intolerável: estava diante do amiguinho polêmico posando numa atitude absolutamente machista (sim: fingir que machismo não existe ou não é tão grave, é machismo). Dessa vez, ele feria um princípio e ela precisava, por um compromisso consigo própria, se pronunciar. Foi o que fez: no post dele ela comentou que machismo era real e sério e que ela falaria com ele inbox.

Inbox ela explica que a pesquisa mostra a realidade, sim!  Que ela mesma e amigas diretas passaram por violência e a pergunta é sempre "o que você estava fazendo lá", "que roupa você estava usando" , "você bebeu" e coisas do tipo. Não se trata de perguntas simples, mas perguntas que, depois da resposta da vítima são seguidas de "ah, mas você queria o que também?" e que isso, essa responsabilização da vítima desse crime horroroso é uma segunda violência ainda mais séria e que ele tinha que se retratar, afinal, era inviável pra ela ler aquilo. Caso ele não se retratasse, o rompimento era a única alternativa enxergada por ela.

Ele responde que a raiva dela era pautada numa experiência pessoal, que existe violência da mulher contra o homem, que ele tinha direito a opinião dele.

Ora, opinião dessas? Isso é injustiça, não opinião. É absurdo do homem, branco, hetero negando que existe machismo, racismo, homofobia e desmerecendo o sofrimento das suas vítimas. Mentindo para si próprio em público e angariando seguidores (a internet possibilita isso). Opiniões merecem respeito e debate, só que no caso das injustiças o que cabe são esclarecimentos e combate. Ela pediu que ele parasse de argumentar uma vez que o simples fato dela ter que justificar o que ela já havia explicado a magoava mais. Ela já sabia, no seu íntimo, que o momento do rompimento tinha chegado.

A separação sempre envolve algum tipo de sofrimento. O medo da saudades, de abrir mão, de tomar a decisão justa quando ela depende do nosso movimento. Esses medos nos causam sofrimento. Em contra-partida, se você fica triste porque abriu mão de algo externo, no caso, um amigo, imagina se você abre mão de um valor. Abrir mão de um valor é ferir-se a si próprio no íntimo, é destruir a própria identidade e perder tranquilidade até pra se olhar no espelho. Consciente disso, ela lamentou a morte simbólica do amigo dela, enfrenta o luto e se sente aliviada por ter mantido a lealdade com ela mesma. Desfez as conexões online, incluindo uma página que faziam juntos, e veio escrever esse texto, como última homenagem ao que aconteceu de bom na vida em comum com ele.